A ética do café da manhã

A ética do café-da-manhã.

Ovos mexidos, geleias, bananas flambadas, requeijão, frios, pães, café, leite e tudo mais que poderia compor um belo desjejum é uma das coisas que não abro mão aos domingos, especialmente se isso inclui música francesa e o amor da sua vida de companhia. É uma espécie de busca pela satisfação, sua e do outro, e uma maneira deliciosa de vingar-se de uma semana estressante de trabalhos.

Em uma dessas orgias dominicais ouvi um elogio pela mesa bem posta e imediatamente me recordei dos tempos em que confeccionava cestas de café-da-manhã, e de um velho paradoxo que rondava meus pensamentos.

Ao ouvir o telefone atendia prontamente, sempre com uma voz de travesseiro e solícita, era um dos segredos, pois bom atendimento significava bom produto; assim que ouvia o clássico: “_ É daí que entregam cestas de café-da-manhã?”, já imaginava o restante do pedido, somente confirmava, “quero uma de tal valor”-do outro lado da linha-, ao retrucar com perguntas do perfil do presenteado, se homem ou mulher, jovem ou mais idoso, até aí transcorria tudo normalmente, mas, ao indagar sobre se é diabético, gostos pessoais, então caía sobre a usual constatação: o solicitante somente quería algo e não demonstrar um carinho pois não tinha noção sobre como era a vida do homenageado, a saída era fazer outras perguntas mais superficiais e trabalhar com o básico embora vendesse um serviço personalizado, isso me aborrecia profundamente.

Uma maneira de manter alguma sanidade nesse trabalho era analisar a reação do presenteado, se tínhamos uma vovó, as minhas preferidas, clientes que realmente conhecem o que é se alimentar bem; algo que as agradavam eram os laços, duplas laçadas sempre mostrava um cuidado então, nem pensar em economia de fitas, coloridas, aramadas, estampadas, com brilho e rendadas, toalhinhas bordadas com o nome (jamais imaginavam que muitas vezes batia na porta da bordadeira altas horas da noite e rezando pra não levar a porta na cara) e o trivial, garrafinha térmica com leite na temperatura ideal, flores, frutas, geléias, pão de queijo, amanteigados e como diría minha mãe: “_ um monte de bagumelos mais”, e para finalizar um lindo cartão com uma caligrafía impecável escrito…por mim, poucos clientes queríam ou se interessavam por esses detalhes. Produtos que saltavam aos olhos e quem os desfrutasse com certeza se deleitaria. O último que tinha noção do que estava sendo entregue era o cliente, ou seja, “o interessado”, o lógico é você se preocupar por um serviço pago e perguntar como foi a entrega e recepção do produto, o que não ocorria, e já que Maomé não vai a montanha, a montanha vai a Maomé, ao perguntar posteriormente sobre o serviço também a resposta era padrão: “_ Hã…, sim, sim, gostou muito.” ou “_Sabe que eu esquecí de perguntar?”

Acredito que por mais que um ser seja restrito quanto à comida e desjejue pão, manteiga e café, quando pensamos no ser ou seres amados oferecemos o melhor pão, uma manteiga especial e o café mais aromático que conhecemos.

E o respeito à máxima “o café é a refeição mais importante do dia”, negligenciamos para nós mesmos, pelo tempo ou outra desculpa que encontramos, contudo ao se tratar de nossos amados acredito que deveríamos ser muito mais criteriosos, como são as pessoas ao encomendar uma cesta erótica; escolhem lingeries, brinquedos, flores (ou legumes), jóias e quitutes com uma exigência de mordomo inglês, não acreditariam se lhes contasse o que já passei em motéis só para valer que o cliente sempre tem razão, desde montar cenários exóticos até distrair uma presenteada até que seu amante chegasse até o local. Então só posso deduzir que, era uma questão de egoísmo, no fundo, puramente para suprir desejos primitivos, a satisfação de uma noite fortuita e fugaz ou de manter um orgulho de ouvir do presenteado:

“_ Muito obrigado, adorei”, com o mesmo orgasmo de quem presenteou uma cesta erótica.

A vida só vale pelos momentos e por uma outra máxima que é aquela que diz que, ao dividirmos sentimentos, multiplicamos alegrias e oferecer-se, prestar mais atenção no outro, é criar e fortalecer laços tão frágeis e idealizados.

Graças a Deus a febre deste tipo de serviço sucumbiu me impulsionando para outros caminhos tão interessantes quanto e que me proporcionem contar de maneira parnasiana algo tipicamente naturalista.

La bruja andaluza

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